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sábado, 11 de setembro de 2010

Faltam 364 dias...

Ando meio sumido, mas não ausente. Toda história é assim, com pontos e vírgulas em seu curso. E podem ter a certeza de que mais importante do que as pausas são as forças renovadas e renovadoras de seguir em paz, juntos. Juntos e de mãos dadas como já escreveu o poeta de Itabira. Não sou e nem serei  um poeta caduco, mas aquele que pode criar à sua volta o momento ímpar, maravilhoso de se viver. 

Certo de que estou triste, triste com o relógio, que teima em seguir agora seus segundos e deixar os próximos 364 dias pela frente. Que venha um por um preparando e capacitando-nos cada vez mais no amor puro; no amor maduro. A história pede uma vírgula e o sentimento grita para sair...

E para falar de sentimento nada melhor que poesias...

MINERAÇÃO DO OUTRO
Carlos Drummond de Andrade


  [1] Os cabelos ocultam a verdade.
     Como saber, como gerir um corpo
     alheio?
     Os dias consumidos em sua lavra
     significam o mesmo que estar morto.


[2] Não o decifras, não, ao peito oferto
     monstruário de fomes enredadas,
     ávidas de agressão, dormindo em concha.
     Um toque, e eis que a blandícia erra em  tormento,
     e cada abraço tece além do braço
     a teia de problemas que existir
     na pele do existente vai gravando.


[3] Viver-não, viver-sem, como viver
     sem conviver, na praça de convites?
     Onde avanço, me dou, e o que é sugado
     ao mim de mim, em ecos se desmembra;
     nem resta mais que indício,
     pelos ares lavados,
     do que era amor e, dor agora, é vício.


[4] O corpo em si, mistério: o nu, cortina
     de outro corpo, jamais apreendido,
     assim como a palavra esconde outra
     voz, prima e vera, ausente de sentido.
     Amor é compromisso
     com algo mais terrível do que amor?
     --pergunta o amante curvo à noite cega,
     e nada lhe responde ante a magia:
     arder a salamandra em chama fria.


A Dança
Pablo Neruda 
 
Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma. 
 
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra. 
 
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira, 
 
Senão assim deste modo que não sou nem és, 
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho. 
 
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas: 
 
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua, 
 
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído, 
 
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

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